quarta-feira, 10 de abril de 2013

Por que todos mentem



Otto Von Bismarck (1815-1898) dizia que "as pessoas nunca mentem tanto quanto depois de uma caçada, durante uma guerra e antes de uma eleição". Bismarck entendia bem de guerra, caça, eleição e mentira. Primeiro chanceler do império alemão, patrono do sufrágio universal em seu país, foi idealizador do primeiro sistema de previdência social do mundo e um magistral manipulador de vaidades.

 

Exageros, citações tiradas do contexto, omissões, montagens maliciosas de imagens do adversário, mentiras, falsificações e fraudes fazem parte do espetáculo eleitoral desde que as sociedades decidiram por essa forma de escolha dos governantes. O psicólogo americano Gerald Jellison, da Universidade do Sul da Califórnia, calcula que, no decorrer de um dia normal qualquer (fora de períodos eleitorais), uma pessoa escuta, vê ou lê duas centenas de mentiras – uma inverdade a cada cinco minutos. A maioria delas são inofensivas mentiras sociais que ajudam a harmonizar as relações interpessoais no cotidiano.

"Seu corte de cabelo ficou ótimo" ou "o trânsito estava um caos, por isso me atrasei" constituem exemplos clássicos. Só uma pequena porcentagem é de mentiras que machucam ou ocasionam prejuízo material ou moral aos outros. Em tempos eleitorais, a taxa de mentira se multiplica geometricamente. Mas também na vida pública existe uma gradação do potencial destrutivo das mentiras. Elas podem variar de uma omissão necessária e justificável até uma fraude com o efeito de enriquecer pessoas e grupos.
 
 

"Um político de sucesso, com muitos anos de carreira, foi obrigado a aprender a mentir de um modo tão profissional diante das câmeras que a imensa maioria das pessoas e mesmo os profissionais do comportamento humano não são capazes de detectar seus deslizes", disse a VEJA Paul Ekman, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, considerado o maior especialista mundial em detecção de mentira, campo a que se dedica há trinta anos. Políticos se equiparam aos atores na capacidade de fingir.

Ambos o fazem por necessidade profissional. Profissionais treinados são capazes de perceber em mais de 70% dos casos, em grupos controlados de estudo, se uma pessoa comum está mentindo. "Quando fazemos o mesmo estudo tendo como voluntários políticos e atores, a taxa de acerto cai para menos de 10%", relata o professor Ekman.

 No caso de atores e poetas, quanto mais completamente eles mentem, melhor fica o espetáculo para o distinto público. No caso dos políticos é outra história – e não obrigatoriamente ruim para sua biografia. No mundo político, a mentira requer uma análise mais complexa. Para começo de conversa, a mentira política nasceu como irmã gêmea da democracia na Grécia antiga. "Em outras situações, a mentira diminui e macula a alma. Mas ela é permitida quando é proferida no interesse do Estado", escreveu o filósofo grego Platão, que viveu no século IV a.C., o dos grandes dramaturgos, poetas e políticos que lançaram as bases da civilização ocidental.
 
Desnecessário dizer que todas as grandes mentiras da história humana, engendradas por governantes, políticos, religiosos, líderes revolucionários e manipuladores de todos os matizes, foram colocadas em circulação em nome do interesse do Estado, do bem comum ou da liberação dos oprimidos. Mentiras oficiais são protegidas por leis de sigilo que as mantêm longe do público em alguns casos, como nos Estados Unidos, por até 25 anos. Uma falsidade recentemente revelada pelos arquivos presidenciais americanos foi à decisão do governo dos Estados Unidos, nos anos 60, de aprofundar cada vez mais o envolvimento militar no Vietnã, mesmo sabendo que a guerra não poderia ser vencida. Naquele tempo e nos trinta anos seguintes, sustentou-se a mentira oficial de que os relatórios diziam que o inimigo comunista estava prestes a ser esmagado.

Os americanos esconderam da opinião pública seu grau de participação nos golpes que, no auge da Guerra Fria, derrubaram governos legitimamente eleitos no Chile e na República Dominicana. O governo dos Estados Unidos mentiu sobre o fato de que, para efeito de pesquisa, expôs soldados à radiação nuclear e deixou negros infectados com a sífilis desenvolver a doença sem tratamento para saber com exatidão como a bactéria destrói o corpo humano. São mentiras usadas para esconder ações bárbaras. Todo país tem mentiras oficiais enterradas em seu passado. Felizmente, nas nações democráticas elas costumam vir à tona. Muitas vezes é tarde demais para que suas vítimas possam ser compensadas, mas a tempo de evitar que se repitam. Muitas das mentiras oficiais realmente servem ao bem comum, e a sociedade espera que elas sejam ditas. "Um general tem o dever de mentir sobre o local do ataque que planeja, e todo mundo espera que o presidente do Banco Central não diga a verdade se alguém lhe perguntar se a taxa de juros vai ser fixada em x ou y", afirma Ekman. "Como regra geral, a mentira dita pelos políticos esconde-se sob a justificativa do bem comum quando interessa mais à sobrevivência dele e de seu grupo."

 Antes de atirar a primeira pedra, aconselham estudiosos da mentira, é bom lembrar que todo mundo mente. A civilização foi construída sobre uma sólida base de mentiras, falsidades e conceitos abstratos aceitos como verdadeiros sem que se tenha deles a mais pálida constatação de veracidade. Não foram apenas as grandes religiões que se espalharam pelo mundo tendo como impulso primordial a fé e, para ilustrá-la aos novos convertidos, uma galeria de fatos altamente improváveis e certamente não comprovados, como homens que voam, mártires que vencem sozinhos Exércitos inteiros e guerreiros valorosos recompensados no céu com virgens, manjares e néctares.

"A mentira esteve a ponto de destruir a humanidade em diversas ocasiões, mas pode-se dizer que foi ela que nos trouxe até aqui", diz o biólogo Alan Grafen, estudioso do comportamento humano. Grafen concentrou seus estudos no papel da mentira na evolução humana. Ele concluiu que a mentira social é sintoma de equilíbrio numa sociedade avançada. Quanto mais interdependente o convívio entre os pares, maior a necessidade da mentira. "Chamemos de alta diplomacia, mas no Vaticano e na Organização das Nações Unidas, por exemplo, a mentira é o amálgama que ajuda essas instituições a não se espatifar nas crises", declara Grafen.
 
 

O biólogo faz uma observação cuja confirmação pode ser obtida no dia-a-dia dos casamentos, do mercado e da política. "Para que cumpra seu papel apaziguador e conciliatório, a mentira exige que a honestidade prevaleça como a característica mais valorizada pelo grupo social", diz Grafen. Ou seja, a mentira para ser socialmente útil precisa ter "pernas curtas e nariz longo", como dizia Gepeto, o pai do Pinóquio, na história infantil criada pelo italiano Carlo Collodi no século XIX. A falsidade deve ser tolerada apenas como contraponto da verdade, sugere o biólogo. Da mesma forma que a virtude só pode ser devidamente exaltada quando se sabe da existência e das tentações do pecado.

É verdade. Como se identificariam os santos se ninguém na humanidade pecasse? "Quando passa de certos limites, portanto, a mentira tem de ser punida. Se ela começa a se tornar dominante, a sociedade, sem se dar conta, caminha para a extinção", observa Grafen. E quais seriam esses limites? Os estudiosos se calam sobre isso, mas a pista pode ser encontrada no bom senso. As mentiras aceitáveis se distinguem das inaceitáveis da mesma forma como o erotismo se diferencia da pornografia. É aceitável esconder de um velho tio uma doença terminal. Quase todos os pedagogos dizem que os pais devem mentir aos filhos pequenos quando eles querem saber precocemente sobre sexo.

 Maridos mentem para as mulheres e elas para eles sobre suas fantasias românticas com outros parceiros. "No fundo existe uma resposta mais cínica para a pergunta sobre qual mentira é inofensiva: aceitável é a mentira que nunca é descoberta", afirma o psicólogo Jellison. "O lado bom da história é que cedo ou tarde toda grande mentira de um relacionamento interpessoal é descoberta. Em geral, porque o mentiroso se entrega."

Depois de três décadas de estudo sobre como detectar a mentira, o professor Ekman desenvolveu um método de apontar mentirosos que foi adotado pelo FBI, a polícia federal americana, e por inúmeros departamentos estaduais de polícia dos Estados Unidos. Quando se trata de um mentiroso envolvido em crime, o método do FBI tem tido uma taxa razoável de sucesso, em torno de 70%. Mas talvez a conclusão mais interessante desse tipo de abordagem seja a que envolve a mentira no cotidiano. "Tenho prazer em dizer que depois de tantos anos de estudo minha maior descoberta foi que nós, seres humanos, não somos mentirosos perfeitos. Entretanto, ao contrário do que imaginava Sigmund Freud, detectar sem erros a mentira é uma tarefa muito complexa e talvez inútil", observa Ekman. "Mentir com imperfeição é fundamental para nossa existência em sociedade." Estudiosos do comportamento animal concluíram que os bichos também mentem, fingem e disfarçam emoções. Quanto mais próximos da linhagem humana, eles se tornam mentirosos mais eficientes. Orangotangos e gorilas são os símios geneticamente mais aparentados com o homem. São também os maiores fingidores do reino animal. A mentira é um dos traços da humanização. O homem é incapaz de mentir até os 3 meses de idade. Os primeiros truques para chantagear mamãe e papai afloram depois dessa idade. "Viver sem mentira seria insuportável", afirma a psicóloga Mary Ann Mason. "Equivale a casar, trabalhar e conviver, enfim, com pessoas cujas emoções pararam de amadurecer quando elas tinham 3 meses de idade."

Embora apareça sempre na literatura e nas parábolas morais como um desvio de caráter, a mentira não foi classificada como um dos sete pecados capitais pelos codificadores da fé católica. A gula, a luxúria e a preguiça estão na lista dos pecados que levam os crentes católicos direto para o inferno. Também são capitais os pecados da ira, da avareza, da soberba e da inveja. A mentira, não. Sem a mentira a vida seria um inferno. "Se nunca pudéssemos mentir, se todos os sorrisos fossem confiáveis e se todos os olhares fossem facilmente decifráveis, a convivência humana seria impossível em casa, no trabalho, em sociedade", escreveu Mary Mason.

 O inglês Charles Darwin (1809-1882), pai da teoria da evolução, foi o primeiro cientista a catalogar as manifestações visíveis da mentira em diversas sociedades. Suas conclusões foram descritas no livro A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, lançado quase vinte anos depois de sua obra fundamental, A Origem das Espécies. Darwin defendeu a idéia de que só a espécie humana consegue expressar emoções através dos músculos da face. Alguns animais, embora tenham a capacidade de fazer caras e bocas, não o fariam com intuito expressivo, como os homens. O esgar de um macaco que lembre um sorriso não significa exatamente que ele esteja feliz. Esse campo de estudo aberto por Darwin foi aprofundado por Paul Ekman.

O psicólogo da Universidade da Califórnia comparou a maneira como as pessoas expressam emoções em mais de duas dezenas de países em todos os continentes. Sua descoberta principal é que as expressões faciais são universais, mas os gestos, a chamada linguagem corporal, têm diferentes significados em cada cultura. Com base em seu estudo, diversos psicólogos desenvolveram métodos de detecção da mentira que se assentam principalmente no exame das expressões faciais. Em seu livro Análise do Caráter, Wilhelm Reich, psicanalista austríaco do início do século passado, já havia proposto uma nova análise do caráter humano quando começou a considerar os aspectos não verbais da comunicação humana. Freud, o mestre com quem Reich rompeu, dizia que "quem vê cara vê coração". Na época parecia uma afirmação pouco exata, mas pesquisas sugerem que é mesmo difícil para as pessoas comuns, sem o treino dos políticos e dos atores, esconder suas emoções e mentir sem que a falsidade acabe de certa forma estampada no rosto.
 

Segundo os psicólogos, existem nove razões principais para que alguém minta ou resolva omitir informações. Os políticos, na avaliação do psicólogo, formam a categoria de pessoas que têm mais razões para mentir, sair-se com evasivas ou omitir dados. Numa lista de motivações para mentir (veja quadro ao lado), os políticos podem ser incluídos em pelo menos cinco. Eles mentem para "fugir de um castigo", para "obter uma recompensa que lhes seria negada se dissessem a verdade", "para ser admirados", "para evitar constrangimentos" e "para manipular". Alguns exemplos recentes ajudam a ilustrar o primeiro dos motivos para mentir que tanto tentam os políticos: "obter uma recompensa", no caso ganhar uma eleição.

O chanceler alemão Gerhard Schroeder acaba de se eleger com uma vantagem ínfima de votos, obtida segundo seus adversários graças a uma mentira ou, mais exatamente, a uma inesperada mudança de atitude absolutamente contrária a suas posições no governo até agora. Schroeder decidiu dizer aos eleitores que a Alemanha sob seu comando não aceitaria juntar-se aos Estados Unidos e à Inglaterra numa iminente guerra contra o Iraque. A Alemanha de Schroeder mandou tropas para o Afeganistão e para a Bósnia e tem sido uma fiel aliada dos Estados Unidos na campanha militar antiterrorista. Mas, como as pesquisas indicavam que os eleitores não aprovavam uma guerra contra Saddam Hussein, o chanceler mudou rapidamente de lado. Essa atitude não é exceção entre os políticos. É a regra em qualquer país. "A democracia é um sistema tão impressionante que produz resultados positivos, em geral, com o somatório de interesses mesquinhos", escreveu o francês Alexis de Tocqueville, historiador e sociólogo do século XIX que se encantou com o sistema político dos Estados Unidos. Esperemos que o mesmo se aplique ao Brasil neste momento de tantas incertezas políticas e econômicas.

 

 




 

Texto de Tania Menai e Roseli Loturco (Edição 1 771 - 2 de outubro de 2002)



Polícia Cidadã

Para alcançarmos está Polícia Cidadã é necessário antes de qualquer coisa que nós como cidadãos de um país democrático tenhamos uma polícia desmilitarizada, há uma necessidade urgente dessa transformação. Para que tenhamos uma Polícia Cidadã somente é necessário que você Assine a nossa petição:

 

 

PETIÇÃO PÚBLICA PELA DESMILITARIZAÇÃO DAS POLÍCIAS E BOMBEIROS MILITARES DO BRASIL!

 

 

 

 


 

Consciência Política PM&BM

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